3º Festival da Rede de Sabedoria movimenta cena cultural de Lages e fortalece as tradições caboclas

Evento gratuito reuniu cinema, música, feiras, oficinas e ritos tradicionais ao longo de dezembro, em diferentes espaços da cidade

Encerrado no último fim de semana, o 3º Festival da Rede de Sabedoria trouxe a Lages uma programação gratuita dedicada ao reconhecimento e fortalecimento das tradições caboclas e dos saberes da oralidade do Planalto Catarinense. Ao longo de dezembro, o evento promoveu atividades culturais em diferentes pontos da cidade, reunindo artistas, mestres e mestras da cultura e público em geral.

A programação incluiu a exibição de filmes, apresentações musicais, de teatro, rodas de conversa, feira cabocla e manifestações tradicionais, como a Recomendação das Almas. As atividades aconteceram em espaços como a Praça do Terminal e o Sesc, reforçando a proposta de circulação cultural e acesso gratuito.

O coordenador geral do projeto, Gilson Maximo, destaca que o festival é resultado de um processo coletivo, construído ao longo do tempo, por diferentes agentes da cultura de tradição oral da região. Ao reunir essas pessoas em uma programação diversificada, o evento se consolida como um espaço de celebração, visibilidade e reconexão com manifestações culturais de origem majoritariamente rural, muitas vezes pouco conhecidas ou distanciadas do cotidiano urbano.

“Levar as tradições caboclas para o espaço urbano é uma forma de reconectar as pessoas com uma identidade que faz parte da história do nosso território. Muitas dessas tradições seguem invisibilizadas e o festival existe justamente para romper esse apagamento e recolocar a cultura cabocla no espaço público”, afirma Gilson Máximo.

RETOMADA DO PIXURUM | Um dos destaques desta edição do Festival foi o Pixurum, um encontro de partilha de saberes criado pela Associação Cultural Matakiterani em 2019, que não era realizado presencialmente desde a pandemia. Trata-se de um círculo de cultura que aborda algum tema ligado à tradição oral – nesta edição o profeta São João Maria – pelo compartilhamento dos saberes das pessoas participantes, com auxílio de uma facilitadora comunitária.

O Pixurum encerra servindo um café com mistura colaborativo. “Num tempo em que todo mundo corre e não escuta, o Pixurum cria pausa, encontro e fortalecimento coletivo. Sentar, ouvir histórias e compartilhar num mundo que desaprendeu a fazer isso é um gesto de resistência. Não é só um café com mistura, é memória, afeto e identidade colocadas em circulação”, resume a articuladora comunitária Daniela Carneiro, que foi a mediadora da atividade.

ARTE E CULTURA EM EVIDÊNCIA | O fortalecimento dos saberes caboclos promovido pelo festival vai muito além das tradições orais vivenciadas em rodas de conversa. Ela perpassa também pela arte, através de apresentações de teatro, música e trova. “Pra mim foi uma alegria participar desse evento. No palco gosto de falar sobre a nossa natureza, o nosso momento do mundo atual. Eu defendo a minha Serra, e Santa Catarina em geral, no verso e no canto bem simples”, comenta o trovador e repentista Bruno Antunes, que foi uma das atrações do último dia do evento.

As peças de teatro revisitaram histórias tradicionais do Planalto Catarinense, misturando fé, lenda e misticismo, mexendo com o imaginário de adultos e crianças. “Gostei da história do Negrinho do Pastoreio, porque a gente aprende que não pode bater em criança. Eu já conhecia a história da serpente [do Tanque], essa é muito legal porque também mostra que não pode maltratar um bebê”, comenta Jefferson Lucca de Oliveira Freitas, educando da Irmandade Nossa Senhora das Graças, que assistiu à peça “Historinhas com Bonecos de Pano”, do Menestrel Faze-Dô.

Ao encerrar sua terceira edição, o Festival da Rede de Sabedoria reforça o papel da cultura tradicional como elemento vivo e em constante transformação, reafirmando a importância de iniciativas que preservam memórias, fortalecem identidades e mantêm os saberes tradicionais em circulação.

“Não é só arte, essas linguagens acessam memória, afeto e história. Quando elas não têm espaço, o que se perde é vínculo. A Rede de Sabedoria aposta na construção de uma rede afetiva que acredita na cultura popular como política de futuro, não como folclore do passado”, completa o produtor do evento, Adilson Freitas.

SOBRE O FESTIVAL | O evento celebra os saberes e fazeres de tradição oral do Planalto Catarinense, vinculadas à Rede de Sabedoria, uma articulação composta por detentores, praticantes e disseminadores de práticas da cultura cabocla do território, como os povos de terreiros, as devotas e os devotos de São João Maria e a Recomendação das Almas.

Criada em 2007 pela Associação Cultural Matakiterani, a Rede de Sabedoria é referência na promoção das práticas de tradição oral e no fortalecimento das mestras, dos mestres e dos coletivos que vivem e preservam esses saberes.

O 3º Festival da Rede de Sabedoria é executado pela Maximus Produção Cultural, com apoio da Associação Cultural Matakiterani, Sesc e Uniplac. Realização do Governo de Santa Catarina por meio da Fundação Catarinense de Cultura, com recursos do Governo Federal e da Política Nacional Aldir Blanc.